#08 Resenha: Toda Poesia – Ferreira Gullar

Resultado de imagem para toda poesia ferreira gullarPoeta já citado no blog anteriormente, Gullar (1930-2016) é considerado pela crítica especializada como uma das últimas vozes mais marcantes da poesia brasileira. As consagrações fazem jus ao trabalho desse autor maranhense, que além de escrever poemas ilustres, também se aventurou em contos, crônicas, ensaios, peças de teatro, dentre outras formas de produção.  No caso, a edição de toda a poesia gullariana utilizada para esta resenha, está desatualizada, pois nela são encontrados apenas os poemas escritos até o ano de 1999, ficando de fora  a produção poética póstuma do autor.  Consta nesta edição, também, um texto de apresentação escrito por Sérgio Buarque de Holanda, que embora muito curto, incita o leitor a descobrir o que há de tão especial e grandioso na poesia de Gullar.

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#03 Pensar fragmentado

Tiro o telefone do gancho:

EU: Alô?

VOZ: Você conseguiria viver recluso numa casca de noz?

EU: Quê? Quem fala?

VOZ: Um amigo. Agora me diz: conseguiria?

EU: Desculpa, não sei quem é. Como assim? Casca de noz?

VOZ:  Não se preocupe. Sou um amigo seu. Aposto que você sabe quem. Apenas me responda…

EU: Por quê?

VOZ: É muito importante.

EU: Tá bom… Não conseguiria. Viver recluso é muito difícil e doloroso.

VOZ: O quê?! Mas você é um ser recluso! Seu mentiroso!

EU: Como…?! Você é louco?!

VOZ: Eu não. Você é quem é!

Só neste momento percebi o aterrador fato: meu telefone nunca havia tocado.


sabe senhor, eu tinha essa ideia na cabeça de que quem não lia era gente burra, de que só porque eu devorava livros por ter mais tempo e mais dinheiro que os outros e por saber assinar meu nome eu estava, de alguma forma, acima de alguém, de minha família ou de meus amantes… meus homens, sim, às vezes tenho amantes mulheres, minhas, também, sabe, não me importo, pra mim corpo é corpo, e afeto pode vir de qualquer lado, seja fêmea, seja macho, e não olho isso de ser um ou outro, aquele ou aquela, o que me for mais agradável há de ficar comigo, sabe, tira essa cara de espanto, senhor, sei que o senhor é velho e vem de uma geração onde essas múltiplas sexualidades eram estranhas… quer que eu mude de assunto? tá bom, bem, como eu estava dizendo, senhor, tinha essa ideia tola de que quem lê é melhor do que quem não lê, e pode até ser, alguns vão concordar, mas sabe, eu vi isso, sabe, minha avó conversando com as irmãs dela e ela disse que a morte é rápida como comer ou fazer xixi, que é tão normal como a mais banal ação humana, e eu nunca esperava uma fala dessas vindo dela, que não sabe nem ler direito por causa das vistas, a medíocre, opa, desculpa, é politicamente incorreto, a coitada… bem, voltando ao raciocínio, senhor, eu percebi, logo após presenciar essa cena, que os que não leem ou não estudam tem a capacidade de filosofar, assim como eu que já li Sócrates, Sartre, Kierkegaard e… ah, desculpe, o senhor não conhece esses nomes, senhor, me esqueci, o senhor também é medíocre, eita, coitado, como a minha avó, sabe, espero que, depois dessa epifania, eu possa ser mais humilde, pois quem lê é sempre humilde, quem lê é sempre mais empático com outras culturas e outros povos, sabe, é comprovado cientificamente, sabe, as pessoas que leem são sempre as melhores pessoas, e creio que você há de concordar comigo, porque tudo o que lhe falei é a mais pura verdade, está escrito, escrito, e o que está escrito e comprovado pela ciência, a mãe de todos nós, não pode ser desmentido, não pode ser contradito, e eu estudei tudo isso, eu leio e sei disso tudo, sei mais que você, não é mesmo, senhor, não é?

#06 Poesia estranha

Certa vez, vi na estante de livros de uma colega o livrinho de título curioso, Rabo 

30783809de Baleia, da carioca Alice Sant’Anna. Lembro que o folheei, li um verso aqui e outro ali, e só. Por alguma estranha razão eu nunca havia me esquecido do título desse livro, mesmo sem saber da principal temática abordada pela autora nos poemas, se o uso do verso era livre ou não, se os poemas valiam a leitura ou não, etc.
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#05 Salazar, Deus e estranhezas.

Nunca antes, após as revoluções feministas ocorridas no século XX, foram debatidasResultado de imagem para marido e outros contos tantas questões acerca da posição da mulher no mundo dentro de obras literárias. Obviamente que figuras ilustres já haviam se atentado para essa questão em séculos passados, tais como Jane Austen e Beatriz Francisca de Assis Brandão, mulheres que se destacaram pelo simples fato de se alfabetizarem e entrarem no campo literário, sendo este majoritariamente dominado por homens. Entretanto, o debate feminista e em denúncia ao machismo ganhou e vem ganhando força, não apenas na nossa sociedade contemporânea, mas também em vários outros países do mundo.

Como um excelente exemplo da representação do machismo na literatura contemporânea, temos o conto ‘Marido’, presente na obra “Marido e outros contos”, publicada em 1998 pela Publicações Dom Quixote, da algarvia Lídia Jorge. Nessa narrativa, a autora descreve o cotidiano de Lúcia, uma porteira de um prédio que sofre abusos do marido alcoólatra. Continuar lendo

#04 Escrevivência: a sobrevivência por meio do narrar.

    Conceição Evaristo, autora negra, mineira e uma das grandes vozes da literatura brasileira contemporânea, já disse em várias entrevistas sobre sua experiência de vida e como escritora que o contar histórias faz parte de sua sobrevivência, pois deixa a realidade mais suportável. Isso é chamado por ela de “escrevivência”, termo muito citado durante os eventos que é convidada a participar e que se encaixa muito bem na obra “Ponciá Vicêncio”, seu primeiro romance. Resultado de imagem para ponciá vicêncio

O romance, de 2003, é confuso. Não por causa de uma linguagem densa e rebuscada, mas sim porque a narração se dá em diferentes instâncias de tempo. O narrador acompanha a trajetória de Ponciá Vicêncio, mulher negra e descendente de escravos que sai do interior em busca de melhores condições na cidade grande, uma cidade simbólica e nunca nomeada na narrativa. Continuar lendo